Fabricantes de memória RAM enfrentam processo por cartel nos EUA

Fabricantes de memória RAM enfrentam processo por cartel nos EUA

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O encarecimento das peças encontrou um culpado nos tribunais da Califórnia. Uma ação coletiva, repercutida pelo portal Tom’s Hardware, acusa as três maiores potências de semicondutores do planeta de violarem a Lei Antitruste Sherman. Juntas, Samsung, SK hynix e Micron dominam a fatia esmagadora de 90% do fornecimento global de chips DRAM. A denúncia aponta que o trio combinou uma redução proposital na fabricação de memórias padrão DDR3, DDR4 e DDR5 para forçar uma inflação nos preços. É de deixar qualquer um indignado notar como o consumidor final vira refém de um oligopólio que dita o custo da nossa diversão enquanto assistimos aos componentes de hardware atingirem patamares proibitivos.

Toda essa manobra nos bastidores teria feito o preço desses componentes saltar cerca de 700% ao longo dos últimos quatro anos. O argumento central da acusação é que as corporações desviaram o foco de suas linhas de montagem para priorizar os chips HBM, voltados para aceleradores de inteligência artificial. Como erguer novas instalações de semicondutores exige aportes de dezenas de bilhões de dólares e demanda anos de obras, não há concorrência capaz de equilibrar o setor. As empresas se defendem dizendo que agem de forma autônoma e que a mudança de rumo é apenas uma resposta comercial óbvia ao estouro da demanda por IA. Conversa fiada para boi dormir, já que essa desculpa corporativa cai muito bem para mascarar margens de lucro infladas artificialmente.

A situação ganha contornos de crise real porque esse sufoco de suprimentos bateu direto na porta dos jogadores de console. A Microsoft usou justamente a disparada nos custos de fabricação como escudo para justificar o reajuste global anunciado nas etiquetas do Xbox Series X e Xbox Series S, pontuando que o valor gasto com memórias mais do que dobrou. A dona da plataforma verde já projeta um cenário de novos aumentos nas prateleiras até 2027 se o mercado não se estabilizar. Aparelhos de mesa operam tradicionalmente no limite do prejuízo em termos de hardware, dependendo de peças baratas para se manterem acessíveis, então qualquer ganância dos fornecedores é repassada direto para o bolso do jogador.

O andamento do processo terá que superar um histórico recente de derrotas jurídicas semelhantes. Uma tentativa de punir o mesmo grupo de empresas naufragou na justiça em 2018, sendo arquivada em definitivo dois anos depois porque os juízes entenderam que as oscilações de preço faziam parte da flutuação natural de um mercado fechado, sem provas de uma conspiração explícita. O diferencial do processo atual é usar a migração conjunta para a tecnologia HBM como o elo que faltava para provar a ação coordenada do cartel.

A memória do mercado, contudo, não esquece que esse tipo de trapaça corporativa já aconteceu exatamente com os mesmos personagens. No começo dos anos 2000, as autoridades norte-americanas e europeias aplicaram penalidades severas após descobrirem que Samsung, SK hynix, Infineon, Micron e Elpida combinaram tarifas de forma criminosa entre 1998 e 2002. Naquela oportunidade, a SK hynix teve que desembolsar sozinha uma multa de US$ 185 milhões após admitir a culpa.

Os prognósticos econômicos para os próximos meses continuam pessimistas. Análises de bancos de investimento indicam que os pentes de memória vão continuar encarecendo ao longo de 2026 e 2027, empurrando qualquer chance de estabilização técnica apenas para meados de 2028. Se essas previsões se pagarem, montar um computador decente, trocar de placa de vídeo ou comprar um console vai virar artigo de luxo inacessível para boa parte dos entusiastas. É o resultado previsível de uma indústria que prefere alimentar a bolha da inteligência artificial do que respeitar o público tradicional que consolidou o mercado de eletrônicos por décadas.

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