Criador diz que Dragon Age está sem rumo na EA

Criador diz que Dragon Age está sem rumo na EA

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O tratamento dispensado pela distribuidora ao universo de fantasia medieval sempre foi o patinho feio quando comparado ao carinho recebido por Mass Effect, a outra joia da coroa da desenvolvedora. Na visão do roteirista, a multinacional enxergava a saga espacial como um produto moderno, dinâmico e de fácil assimilação comercial, enquanto o RPG de espadas era rotulado internamente como uma estrutura antiquada e excessivamente dependente de texto. Essa miopia gerencial sabotou a evolução das mecânicas de combate, que oscilaram de forma bizarra entre a lentidão estratégica do primeiro título e uma correria exagerada nas sequências. Ver executivos engravatados pedindo desculpas pelos sucessos comerciais de uma equipe criativa só porque o jogo superou as expectativas medíocres das planilhas é o tipo de postura que drena a energia de qualquer artista.

As revelações sobre os bastidores dessa conturbada relação comercial foram expostas por David Gaider, o principal arquiteto narrativo da franquia durante o período de ouro da BioWare. Em um depoimento concedido ao portal PC Gamer, o profissional foi categórico ao afirmar que não enxerga viabilidade de futuro para a propriedade intelectual sob o comando da Electronic Arts, revelando que a produção sobrevivia constantemente sob a sombra iminente do cancelamento. O projeto só avançava porque os lançamentos entregavam marcas de vendas muito acima do que a diretoria estipulava, gerando espanto recorrente nos escritórios centrais.

“Gosto de um desafio. Então, se por algum estranho alinhamento dos astros alguém me entregasse a franquia Dragon Age de volta e dissesse ‘devolva a vida a esse bebê’, seria difícil, mas acho que seria algo interessante de fazer. Voltar ao básico do que fez Dragon Age atrair tantas pessoas, ir a um lugar sombrio e perigoso, fazer coisas que vão deixar as pessoas perturbadas. Acho que é isso que eu gostaria de fazer com ela.”


Essa incompreensão crônica sobre a identidade da obra se arrasta desde a campanha de marketing do lendário Dragon Age: Origins. O escritor relembrou com amargura o infame trailer promocional embalado por uma música do cantor Marilyn Manson e focado em violência visual gratuita, uma estratégia de divulgação equivocada que tentou empurrar um RPG tático denso e maduro como se fosse um produto infantojuvenil focado em polemizar pelo choque. Afastar-se do ecossistema corporativo foi a decisão que o roteirista tomou logo após a conclusão de Dragon Age: Inquisition, abandonando o time de desenvolvimento antes mesmo de se desligar em definitivo do estúdio canadense.

Acompanhar o desabafo de quem carregou o lore de Thedas nas costas evidência como o modelo industrial das grandes publicadoras sufoca propriedades intelectuais que exigem profundidade. Saber que o autor original aceitaria reassumir as rédeas para resgatar a atmosfera visceral e perturbadora das origens traz um misto de nostalgia e frustração, especialmente porque sabemos que a holding dificilmente abrirá mão do controle de suas marcas. Enquanto a liderança corporativa insistir em transformar narrativas complexas em experiências pasteurizadas de consumo rápido para agradar investidores, os órfãos do RPG clássico terão que se contentar em ver suas franquias favoritas mantidas em aparelhos na geladeira do mercado.

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